domingo, 4 de maio de 2014

O Monstro





A versatilidade desconexa com que articulo raciocínios, infelizes e geometricamente indefiníveis, é directamente proporcional à emoção que me despertam aqueles arrepios desconfortáveis na espinha, que todos vós conheceis bem, sou por isso mais um elo sensível do universo, que responde a estímulos, muitas vezes superficiais e quase imperceptíveis.

O nosso mundo é aquilo que nos rodeia, e mais aquilo que inventamos dentro de nós, outras vezes, porém, também inventamos o que nos rodeia, numa moldura suficientemente opaca para que não possam espreitar a nossa alma despida.

Já alguém mostrou verdadeiramente e voluntariamente a sua alma despida, a natureza mais pura e cristalina do que sente? Ninguém nos conhece realmente, desde crianças que a vida nos ensina a maquilhar a nossa verdadeira índole, que seria da sociedade se um dia todos tivéssemos a honestidade intelectual de nos mostrarmos sem pudor, milhões de psicopatas a partilhar o mesmo planeta, a mesma cidade, a mesma rua. Tenho pensamentos que fariam corar a mais negra das almas, e carinhos aprisionados que libertariam o universo da solidão. Somos uma espécie notável, conseguimos partilhar uma vida de intimidade, sem mostrar uma ínfima parte sequer da nossa verdadeira natureza.

Só a loucura e a bebedeira nos aproximam ligeiramente da camada exterior do turbilhão incessante que temos dentro do peito, apertamos e moldamos a fúria de forma à mesma caber dentro da caixa torácica, e fique ainda espaço suficiente para respirar. É já uma condição genética, linhagens de psicopatas precedem-nos, sou tão vil e serviçal, como qualquer outro antepassado do início da nacionalidade, já fingi talvez mais que o Pessoa, já morri de amor como D. Pedro V. Morri de amor muitas vezes, e de cada vez, ressuscitou um monstro diferente.

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