segunda-feira, 3 de março de 2014

A menina faz quarenta anos




A menina faz quarenta anos.
Desta vez não é suficiente um “Porreiro pá!...”, nem sequer chegará um exercício sublime ao jeito do Livro do Desassossego, não chegará uma epopeia colorida de Tágides, tão pouco chegará uma Eneida, uma Odisseia ou uma Ilíada.
Porra pá!...A menina faz quarenta anos.
Quarenta anos de ilusões e sonhos, e também quarenta anos de enganos e esquemas, e tudo mais que queiramos meter num copo, sempre meio cheio ou meio vazio. Não chegará uma “Tabacaria” para descrever o PREC, não chegará a cáustica ironia do Camilo em “A Queda dum Anjo” para representar o quadro exacto de quatro décadas de deputados ingénuos, quatro décadas de manhosos de carácter inquestionavelmente competente.
Foram quarenta anos virtuosos, quarenta anos que fizeram florescer a mais viçosa das oligarquias, enquistada na liberdade de se poder ser um corrupto imaculado, à descarada. Quarenta anos de flores, de música e poesia, de fagulhas nos olhos de quem embalado na modernidade, nem repara que a coisa lhe vai saindo do bolso. É como um grande bordel onde as donzelas nos prometem o amor eterno.
Foi assim. Numa grande orgia construímos um futuro melhor para todos.
Esta menina de que falo é a nossa terceira república, entenda-se como se quiser as irmãs mais velhas, independentemente das particularidades e especificidades dos regimes políticos das mesmas, é factual e concreto, que esta menina sobre a qual escrevo umas coisas é a terceira.
Quarenta anos é especial, até o Paco Bandeira, que dizem as más-línguas que batia na mulher, escreveu uma música, património pseudocultural da nossa menina, sobre a ternura própria desta idade, transposta em espaço temporal humano como a definição de maturidade e da metade da esperança média de vida, que nos fará pensar como abusámos da primeira metade, metade essa que não sabíamos que era a mais viril e intensa, a melhor, e nos fará pensar na melhor forma de tornar a última metade menos penosa, atendendo que se caminha progressivamente para o grande final.
Posta esta grosseira comparação sobre o percurso da vida humana, incomparavelmente menos importante que a menina, vamos então ao que interessa. A menina abarca um todo mal definido, aconchegado num reportório ideológico que nos tem conduzido, umas vezes mais depressa, outras mais devagar, para o abismo, circunstância com a qual convivemos de maneira aprazível, como tem mostrado a história. A menina foi a modos que um D. Sebastião, o Sebastianismo é um elemento fundamental da nossa matriz genética, foi desejada, aclamada, cantada e efabulada. Assim a menina foi revolução, contida e de boleia dos oficiais milicianos, foi liberdade e uma percepção de igualdade e felicidade para todos por igual. Foi cravos e rosas, foi foguetes e festas do Avante, foi fados e baladas, poemas e prosas, e comícios, e assembleias e saneamentos.
Acabou-se com os fascistas, nacionalizou-se a propriedade, e criou-se a utopia que isto era de todos e que todos tinham direito ao seu quinhão, ao seu sonho, o colonialismo tinha acabado, liberdade e autodeterminação para todos. Os tugas das colónias eram senhores feudais, tugas desprezíveis e racistas, o Soares, desculpem mas não sou capaz de tratar a criatura de outra forma, que começa no PC, funda o PS e dura-se mais uns anos, ainda nos presenteava com uma outra qualquer organização (recuso-me a falar na fundação pois certamente iria ser mal-educado), foi uma peça chave.
O milagre das rosas da Rainha Santa foi um truque de quinta categoria, ao jeito do Luís de Matos, o verdadeiro milagre das rosas foi protagonizado pelo Soares e seus compinchas, juntou-se o PPD, provavelmente o único partido político do mundo sem uma ideologia subjacente e que só não fez parte da internacional socialista porque o Soares não deixou, não queria dividir a sua coutada, depois o partido do táxi, já estava o PC, e pronto, fez-se uma grande caldeirada. Forjaram uma grande irmandade e começaram a parir o monstro que comeu a menina, isto partindo de uma ideia romântica e ingénua que a menina era virgem, e que não foi ela que seduziu o monstro.
A grande valia que a menina conseguiu trazer foi a liberdade de expressão, aquela que me permite fazer este exercício desajeitado de escrita e empurrar-vos para que o leiam. Na Grécia Antiga, este direito a que chamavam de “Isegoria”, era de tal maneira importante que até era concedido aos escravos. Assim, tal como na antiguidade, aqui e agora, a maioria é escravo, ou seja tem a sua liberdade condicionada, amarrada ao instinto de sobrevivência, amarrada às bocas que no final do dia tem para alimentar. A escravidão nunca foi abolida, está enraizada mesmo nas sociedades ditas modernas, como gostamos de apregoar a nossa.
Não me quero alongar muito, nem fugir do tema central, ou seja, a melhor forma de comemorar os quarenta anos da nossa menina, e cheguei à conclusão que nada melhor que pedir intervenção divina, para abençoar a menina. Pensei um pouco, mas a escolha tornou-se demasiado evidente Mateus, 5, As Bem-aventuranças, O sermão da montanha: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem- aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos…”.
Assim alegremo-nos, rejubilemos estes últimos quarenta anos, eles foram decisivos para que a maioria dos portugueses tenha garantido o seu lugarzinho no paraíso. Quando pensarem no Soares, no Cavaco, no Sócrates e no Passos Coelho lembrem-se do quanto eles foram importantes para garantirmos o nosso bilhete para o reino dos céus.
 
P.s. Não consigo parar de rir quando penso na ironia da história, quando eloquentemente invocam os valores de Abril, não consigo deixar de pensar na Abrilada de 1824 e fico na dúvida que valores norteiam determinadas personalidades…


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