terça-feira, 11 de março de 2014

O quilate das suas prosperidades



“As nações não vivem só de heroísmos, para cada povo existe, como para os indivíduos, uma conta de Deve e Haver, que nos dá o quilate das suas prosperidades, e por onde, cedo, até para os maiores impérios, os pródromos da decadência se denunciam.
Com respeito a Portugal, não será sem interesse indagar por que preço pagou as suas glórias, e quais os efeitos delas nas condições gerais do país.”
 A não ser pela evidência de uma escrita cuidada, poderíamos pensar que este excerto de texto poderia ter sido retirado de qualquer jornal ou comentário da actualidade, poderíamos pensar serem palavras de qualquer comentador de ocasião, dos muitos que invadem a opinião publicada, bombardeando-nos com doutrinas de propaganda, às vezes com prévia orientação, outras com um livre arbítrio, no mínimo questionável.
Nas últimas semanas fomos brindados com um discurso que o país está melhor, os sintomas da doença da pátria têm sido assertivamente combatidos, têm se purgado os males, mas o mesmo discurso alvitra que se trata exclusivamente dos males da nação, o mesmo não abrange os indivíduos, que vão continuar a padecer das maleitas. Trata-se de definir o estado como uma entidade exógena, alheia aos portugueses e à sua condição de vida. É curiosa esta forma de apresentar o todo, distanciado e desconexo das partes, como se as várias parcelas que compõem o todo fossem drasticamente menos importantes que o resultado final da soma das suas condições individuais. Dito de uma forma simples, é como se a globalidade da sociedade prospera-se, mantendo o empobrecimento das várias parcelas que a compõem, como se a miséria de um povo significa-se a riqueza de uma nação…
A particularidade do excerto de texto apresentado é ter sido escrito em 1928, maior excentricidade advém de o mesmo ser uma mensagem ao leitor de um livro que pretende ser um compêndio sobre os paradigmas da economia de um Portugal ao longo dos séculos. É a mensagem ao leitor de J. Lúcio de Azevedo na obra Épocas de Portugal Económico.
É deveras redutor para a actualidade ser notavelmente definida por um texto que visava ser crítico do passado, ser crítico da forma como erradamente construímos bases de sustentabilidade pouco consentâneas com a nossa condição, criando riqueza para nichos próximos do poder, e deixando de fora o grosso de uma população frágil, mas sempre, ou quase sempre dócil.
Os paralelismos de discurso não se ficam por aqui, pela Europa vão cada vez mais surgindo os nacionalismos, bom exemplo tivemos ultimamente na Suíça, vamos ver o que nos trazem as próximas eleições ao parlamento europeu, distanciado dos cidadãos mais que o paraíso. Com uma tendência de incorporação de pequenos partidos de extrema-direita, o que nos espera infelizmente será discursos deste género: “Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do século procurámos restituir o conforto das grandes certezas. Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever. Assim se assentaram os pilares do edifício, e se construiu a paz, a ordem, a união dos portugueses, o estado forte, a autoridade prestigiada, a administração honesta, o revigoramento da economia, o sentimento patriótico…”
Da Europa será isto que nos espera, não mencionei a situação da Ucrânia pelo simples facto de a mesma nunca ter sido um estado independente até à queda do muro de Berlim, será sempre um estado acoplado a um império. O idealismo com o qual se assentou a construção de uma união europeia, provavelmente o maior feito humano com base nos seus direitos inalienáveis, está a chegar ao fim, por via da corrupção material e intelectual dos seus dirigentes, por via do enfraquecimento dos cidadãos e das suas instituições.
Mas para as dúvidas e para o negativismo, é fácil de encontrar conforto, estará Deus e a virtude, a moral, o trabalho e o dever, a autoridade e a ordem. Em relação à administração honesta e ao revigoramento da economia, deixem lá isso, já andamos cá há nove séculos, já ninguém nos comove…

segunda-feira, 3 de março de 2014

A menina faz quarenta anos




A menina faz quarenta anos.
Desta vez não é suficiente um “Porreiro pá!...”, nem sequer chegará um exercício sublime ao jeito do Livro do Desassossego, não chegará uma epopeia colorida de Tágides, tão pouco chegará uma Eneida, uma Odisseia ou uma Ilíada.
Porra pá!...A menina faz quarenta anos.
Quarenta anos de ilusões e sonhos, e também quarenta anos de enganos e esquemas, e tudo mais que queiramos meter num copo, sempre meio cheio ou meio vazio. Não chegará uma “Tabacaria” para descrever o PREC, não chegará a cáustica ironia do Camilo em “A Queda dum Anjo” para representar o quadro exacto de quatro décadas de deputados ingénuos, quatro décadas de manhosos de carácter inquestionavelmente competente.
Foram quarenta anos virtuosos, quarenta anos que fizeram florescer a mais viçosa das oligarquias, enquistada na liberdade de se poder ser um corrupto imaculado, à descarada. Quarenta anos de flores, de música e poesia, de fagulhas nos olhos de quem embalado na modernidade, nem repara que a coisa lhe vai saindo do bolso. É como um grande bordel onde as donzelas nos prometem o amor eterno.
Foi assim. Numa grande orgia construímos um futuro melhor para todos.
Esta menina de que falo é a nossa terceira república, entenda-se como se quiser as irmãs mais velhas, independentemente das particularidades e especificidades dos regimes políticos das mesmas, é factual e concreto, que esta menina sobre a qual escrevo umas coisas é a terceira.
Quarenta anos é especial, até o Paco Bandeira, que dizem as más-línguas que batia na mulher, escreveu uma música, património pseudocultural da nossa menina, sobre a ternura própria desta idade, transposta em espaço temporal humano como a definição de maturidade e da metade da esperança média de vida, que nos fará pensar como abusámos da primeira metade, metade essa que não sabíamos que era a mais viril e intensa, a melhor, e nos fará pensar na melhor forma de tornar a última metade menos penosa, atendendo que se caminha progressivamente para o grande final.
Posta esta grosseira comparação sobre o percurso da vida humana, incomparavelmente menos importante que a menina, vamos então ao que interessa. A menina abarca um todo mal definido, aconchegado num reportório ideológico que nos tem conduzido, umas vezes mais depressa, outras mais devagar, para o abismo, circunstância com a qual convivemos de maneira aprazível, como tem mostrado a história. A menina foi a modos que um D. Sebastião, o Sebastianismo é um elemento fundamental da nossa matriz genética, foi desejada, aclamada, cantada e efabulada. Assim a menina foi revolução, contida e de boleia dos oficiais milicianos, foi liberdade e uma percepção de igualdade e felicidade para todos por igual. Foi cravos e rosas, foi foguetes e festas do Avante, foi fados e baladas, poemas e prosas, e comícios, e assembleias e saneamentos.
Acabou-se com os fascistas, nacionalizou-se a propriedade, e criou-se a utopia que isto era de todos e que todos tinham direito ao seu quinhão, ao seu sonho, o colonialismo tinha acabado, liberdade e autodeterminação para todos. Os tugas das colónias eram senhores feudais, tugas desprezíveis e racistas, o Soares, desculpem mas não sou capaz de tratar a criatura de outra forma, que começa no PC, funda o PS e dura-se mais uns anos, ainda nos presenteava com uma outra qualquer organização (recuso-me a falar na fundação pois certamente iria ser mal-educado), foi uma peça chave.
O milagre das rosas da Rainha Santa foi um truque de quinta categoria, ao jeito do Luís de Matos, o verdadeiro milagre das rosas foi protagonizado pelo Soares e seus compinchas, juntou-se o PPD, provavelmente o único partido político do mundo sem uma ideologia subjacente e que só não fez parte da internacional socialista porque o Soares não deixou, não queria dividir a sua coutada, depois o partido do táxi, já estava o PC, e pronto, fez-se uma grande caldeirada. Forjaram uma grande irmandade e começaram a parir o monstro que comeu a menina, isto partindo de uma ideia romântica e ingénua que a menina era virgem, e que não foi ela que seduziu o monstro.
A grande valia que a menina conseguiu trazer foi a liberdade de expressão, aquela que me permite fazer este exercício desajeitado de escrita e empurrar-vos para que o leiam. Na Grécia Antiga, este direito a que chamavam de “Isegoria”, era de tal maneira importante que até era concedido aos escravos. Assim, tal como na antiguidade, aqui e agora, a maioria é escravo, ou seja tem a sua liberdade condicionada, amarrada ao instinto de sobrevivência, amarrada às bocas que no final do dia tem para alimentar. A escravidão nunca foi abolida, está enraizada mesmo nas sociedades ditas modernas, como gostamos de apregoar a nossa.
Não me quero alongar muito, nem fugir do tema central, ou seja, a melhor forma de comemorar os quarenta anos da nossa menina, e cheguei à conclusão que nada melhor que pedir intervenção divina, para abençoar a menina. Pensei um pouco, mas a escolha tornou-se demasiado evidente Mateus, 5, As Bem-aventuranças, O sermão da montanha: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem- aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos…”.
Assim alegremo-nos, rejubilemos estes últimos quarenta anos, eles foram decisivos para que a maioria dos portugueses tenha garantido o seu lugarzinho no paraíso. Quando pensarem no Soares, no Cavaco, no Sócrates e no Passos Coelho lembrem-se do quanto eles foram importantes para garantirmos o nosso bilhete para o reino dos céus.
 
P.s. Não consigo parar de rir quando penso na ironia da história, quando eloquentemente invocam os valores de Abril, não consigo deixar de pensar na Abrilada de 1824 e fico na dúvida que valores norteiam determinadas personalidades…