segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Órfãos numa terra que nos envergonha




A aparência de modernidade tende em tornar as sociedades num pueril vazio de valores e de símbolos, quando não conseguimos projectar num ícone, a nossa consciência de identidade colectiva, quando os vectores que norteiam a nossa conduta enquanto cidadãos se dissolvem na esperança de qualquer aforro de mais-valias, (quantificáveis em várias perspectivas) quando as glórias do passado de uma nação se transformam em meras narrativas literárias, sem estabelecer qualquer relação de identidade, tenderemos a perder o elo umbilical com a nossa consciência histórica e com as memórias partilhadas entre gerações, passaremos a ser órfãos numa terra que nos é indiferente e nos envergonha.
A actualidade deixou certamente de ser aquilo que ocorre, passou a ser aquilo que se arquitecta, já não se encontram vincadas diferenças entre uma coisa e outra, importante é potenciar as consequências, preferencialmente a curto prazo, parte-se de uma atitude selectiva do que apresentar características de interesse imediato, com tentativas de interpretação encadeadas na vontade, ou aparente concordância, de uma especulada necessidade, desse cidadão que sem saber perdeu o vínculo, a um todo, que vai todos dias desprezando mais, na coloquial conversa do café da manhã.
É me difícil interpretar com rigor o substrato das emoções que emergem das várias portugalidades, e também a natureza dos métodos aplicados pela politiquice instalada, reflexo activo da conjuntura de influências, isenta de barreiras morais, numa desenfreada marcha gananciosa ávida de saciar uma fome, enraivecida por anos a fio a colar cartazes e a prestar vassalagem à mediocridade.
A fraude por natureza tende a engendrar a fraude, construímos uma juventude assente numa corrupção disseminada, não sei que outro resultado poderíamos esperar, levando em conta a miopia cultural generalizada.
Vivemos os dias da informação dos amiguinhos (nem todos ingénuos) das redes sociais, com narrativas sem finalidade, ou com narrativas previamente orientadas pelo grupinho correspondente, onde é notório o traço inevitavelmente prisioneiro dos interesses, e dos fantasmas que acentuam a efabulação, do que defendem e a sua concepção do mundo. Será porventura este desfasamento cultural, entre a educação que julgamos ter, e a que efectivamente temos, um dos problemas maiores, a dispersão e esquecimento dos valores fundamentais, sobre os quais são construídas as sociedades, tornou-se um emergente dilema nacional, a arquitectura da politiquice transformou-se numa banal representação mal encenada, urje saber que caminho queremos trilhar, seja ele a exaltação da governança medíocre, seja o mesmo o regresso à tríade Fé, Lei e Rei, ou noutra versão de Futebol Fátima e Família.
Por outro lado vivemos num país dividido, uma metade litoral que se quer assumir como cosmopolita e de vanguarda (a metade do facebook), e a metade do Portugal profundo em declínio e abandono, onde vamos rezar os mortos, onde saqueamos as garantias dos financiamentos bancários, constituindo fiadores os ascendentes, transformando-os em parceiros morais da nossa loucura colectiva.
É estranho um país tão estreito estar nestas condições, daqui a 20 anos não haverá interior para chorar, estará naturalmente extinto, estará abandonado, desertificado, comeremos a partir desse dia o que os nossos parceiros da Europa Moderna nos derem de ração (a existir ainda Europa, como entidade económica).
Daqui a 20 anos não teremos a metade interior do rectângulo, não porque os espanhóis a tenham conquistado (que de facto não a querem), apenas porque a geração mais qualificada de sempre não quer, porque não lhe apetece, voltar às suas origens, porque evoluíram culturalmente e se sentem marialvas demais para sujar as mãos de terra.
Corremos o risco de perder a consciência da identidade nacional, por isso até quando vamos deixar estes grupinhos de moçoilos organizados em “Gangs” continuarem a abocanhar vorazmente o sustento da larga maioria, que chora o Eusébio e Exalta o Ronaldo? Será que não há por ai um Sidónio, nem que seja de segunda?…


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