domingo, 26 de janeiro de 2014

In nomine soleníssima Praxis

Não poderia começar de outra forma este texto, in nomine soleníssima Praxis, parece-me abusivo e intrusivo a forma como os meios de comunicação social têm tratado a praxe académica, ou seja “o conjunto de usos e costumes tradicionalmente existentes entre os estudantes da cidade de Coimbra…”, sim sublinho a palavra Coimbra, e tenho por dever de consciência, obrigação imposta pela minha vivência, de erguer a voz perante um ataque vil destas dimensões a tradições seculares, misturando-as com práticas facilmente comparáveis com rituais obscuros de organizações secretas.
 
Choro com as famílias a perda dos filhos, nada se pode comparar à dor da perda de um filho, estou solidário com o seu desejo de esclarecimento neste macabro acontecimento, reprovo a totalidade dos rituais que foram descritos em tudo que li, ouvi e vi, sobre este caso.
 
Posto isto, temos de se separar o trigo do joio, temos de uma forma esclarecida de entender que estas formas derivadas da matriz original da Praxe, nada têm de proximidade, ao verdadeiro espirito da soleníssima Praxis, e do verdadeiro espirito académico que exalta a juventude, a alegria e a partilha solidária, numa experiência de comunidade dificilmente repetível ao longo da vida.
A primeira situação que me pareceu bizarra, tenho acompanhado este caso pela comunicação social, e estou há muitos anos desligado da academia, foi constatar que o Cueca ainda é o Dux-Veteranorum, poucos entenderão o que estou a escrever (os que entenderem frequentaram o edifício OAF e certamente os Fans), o meu Dux foi o Cabralis, no caso de quererem enquadrar temporalmente a minha vivência na academia (na altura deveria normalmente ter sido o Paulão o Dux, daqui o meu abraço se leres o que escrevo, espero que estejas mais magrinho). Intriga-me a motivação de alguém que é Dux há 15 anos, atendendo que não é pago ordenado, e não é suposto se fazer carreira, certamente sintoma de falta de vitalidade da academia, da juventude, crónico sintoma nos jovens Calimeros que produzimos nas nossas Universidades (esta do Calimero vem de um texto que li há dias).
Parece-me que não faz sentido alguém ser Dux todos estes anos (os pais devem ter dinheiro, e certamente não o devem querer por perto), mas é também grave, alguém que exerce essas funções, não ter uma voz activa na defesa da tradição, da academia, da praxe, do que efectivamente representa, alguém que tem a obrigação de defender o Concelho de Veteranos, a Universidade e Coimbra.
Avançando, a praxe académica deve ser tão antiga como a Universidade fundada em 1290 por D. Dinis, teve capítulos positivos ao longo da sua história, e acontecimentos menos positivos, D. João V proibiu na altura chamada “investida”, mas a praxe como hoje entendemos, terá tido inicio como o fim do foro académico, com o fim do policiamento dos archeiros, ter-se-á iniciado o começo das trupes. Não terei de lembrar o papel do luto académico na importância da democracia e liberdade que vivemos, nem a real intervenção das Repúblicas na consciencialização política de muitas gerações.
Longe de mim a ideia de tentar fazer uma resenha histórica do que é e foi a praxe, escrevo hoje apenas para a defender.
 
Ao quarto toque vespertino da “cabra” soam os primeiros acordes, os “caloiros” traçam a capa pela primeira vez, é a sua primeira imposição simbólica de insígnias, os “putos”, a quem é vedada a permanência na Alta após as 3 da manhã, começam a ter a lagrima no olho, de capa traçada abraçam aquele momento eterno que querem manter por propriedade, os veteranos, quartanistas e quintanistas choram a despedida, e a cidade enternecida, toma o seu património secular, onde cantou o Zeca tocou o Brojo, o Portugal, o Adriano, e tantos outros.
Estranho porém, que na missa encomendada (que passou nos meios de comunicação social), a música de fundo, como adeus ao trágico acidente, tenha sido a Balada do 5º Ano Jurídico de 1989, a balada da despedida que tem marcado gerações, e ainda me deixa arrepiado.
Vi inúmeras vezes os pais com os olhos mareados de lagrimas a ver os filhos a queimar o grelo, a desfolhar as fitas, a usarem cartola e bengala, isto é a praxe académica, aqui se ganham amigos para a vida, aqui se conquista uma interligação que mantemos para sempre, prova disso o que escrevo.
Não sei para onde estes jovens de hoje levarão a praxe académica, certo porém que quero acreditar numa juventude que terá o arrojo de levar a praxe e a motivação deste país, sim porque este país depende das gerações futuras, para patamares de dignidade que a mesma merece.
 
Quem viveu Coimbra sabe o que quero dizer, sabe e sente cada momento, cada memória, “…e quando olhares as águas do rio, lembra-te de mim. És a andorinha duma primavera que chegou ao fim…”.
 
Já agora ó Cueca… tem tomates, defende a Academia!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O sal da solidão...




A saudade é o sal que tempera a solidão, sem saudade a solidão seria um vazio insuportável, sem gosto, é o elo, muito embora às vezes frágil demais, que nos prende a esta forma de vida sonâmbula e insana. É na sua essência, uma mensagem do passado que nos lembra que já lambemos avidamente a vida, que nos sacode e deixa alerta, para a possibilidade de talvez um dia podermos vir a fazer as pazes com o destino.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Órfãos numa terra que nos envergonha




A aparência de modernidade tende em tornar as sociedades num pueril vazio de valores e de símbolos, quando não conseguimos projectar num ícone, a nossa consciência de identidade colectiva, quando os vectores que norteiam a nossa conduta enquanto cidadãos se dissolvem na esperança de qualquer aforro de mais-valias, (quantificáveis em várias perspectivas) quando as glórias do passado de uma nação se transformam em meras narrativas literárias, sem estabelecer qualquer relação de identidade, tenderemos a perder o elo umbilical com a nossa consciência histórica e com as memórias partilhadas entre gerações, passaremos a ser órfãos numa terra que nos é indiferente e nos envergonha.
A actualidade deixou certamente de ser aquilo que ocorre, passou a ser aquilo que se arquitecta, já não se encontram vincadas diferenças entre uma coisa e outra, importante é potenciar as consequências, preferencialmente a curto prazo, parte-se de uma atitude selectiva do que apresentar características de interesse imediato, com tentativas de interpretação encadeadas na vontade, ou aparente concordância, de uma especulada necessidade, desse cidadão que sem saber perdeu o vínculo, a um todo, que vai todos dias desprezando mais, na coloquial conversa do café da manhã.
É me difícil interpretar com rigor o substrato das emoções que emergem das várias portugalidades, e também a natureza dos métodos aplicados pela politiquice instalada, reflexo activo da conjuntura de influências, isenta de barreiras morais, numa desenfreada marcha gananciosa ávida de saciar uma fome, enraivecida por anos a fio a colar cartazes e a prestar vassalagem à mediocridade.
A fraude por natureza tende a engendrar a fraude, construímos uma juventude assente numa corrupção disseminada, não sei que outro resultado poderíamos esperar, levando em conta a miopia cultural generalizada.
Vivemos os dias da informação dos amiguinhos (nem todos ingénuos) das redes sociais, com narrativas sem finalidade, ou com narrativas previamente orientadas pelo grupinho correspondente, onde é notório o traço inevitavelmente prisioneiro dos interesses, e dos fantasmas que acentuam a efabulação, do que defendem e a sua concepção do mundo. Será porventura este desfasamento cultural, entre a educação que julgamos ter, e a que efectivamente temos, um dos problemas maiores, a dispersão e esquecimento dos valores fundamentais, sobre os quais são construídas as sociedades, tornou-se um emergente dilema nacional, a arquitectura da politiquice transformou-se numa banal representação mal encenada, urje saber que caminho queremos trilhar, seja ele a exaltação da governança medíocre, seja o mesmo o regresso à tríade Fé, Lei e Rei, ou noutra versão de Futebol Fátima e Família.
Por outro lado vivemos num país dividido, uma metade litoral que se quer assumir como cosmopolita e de vanguarda (a metade do facebook), e a metade do Portugal profundo em declínio e abandono, onde vamos rezar os mortos, onde saqueamos as garantias dos financiamentos bancários, constituindo fiadores os ascendentes, transformando-os em parceiros morais da nossa loucura colectiva.
É estranho um país tão estreito estar nestas condições, daqui a 20 anos não haverá interior para chorar, estará naturalmente extinto, estará abandonado, desertificado, comeremos a partir desse dia o que os nossos parceiros da Europa Moderna nos derem de ração (a existir ainda Europa, como entidade económica).
Daqui a 20 anos não teremos a metade interior do rectângulo, não porque os espanhóis a tenham conquistado (que de facto não a querem), apenas porque a geração mais qualificada de sempre não quer, porque não lhe apetece, voltar às suas origens, porque evoluíram culturalmente e se sentem marialvas demais para sujar as mãos de terra.
Corremos o risco de perder a consciência da identidade nacional, por isso até quando vamos deixar estes grupinhos de moçoilos organizados em “Gangs” continuarem a abocanhar vorazmente o sustento da larga maioria, que chora o Eusébio e Exalta o Ronaldo? Será que não há por ai um Sidónio, nem que seja de segunda?…