quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A nossa verdade



Hoje perdi uma parte da minha tarde (efectivamente aplica-se bem o verbo perder, pois foi tempo gasto com uma inútil diligência) a assistir às declarações políticas dos vários partidos com assento parlamentar.
Tenho resistido em escrever nos últimos dias, não por sentir um vazio de ideias, ou consciência pesada por o que penso, digo, ou escrevo, pura e simplesmente por achar uma veleidade intelectual pensar que se pode ter uma opinião, seja ela qual for, na pobreza avassaladora que vivemos hoje. Será sempre volátil e despropositado o que escrevo numa pátria em que crianças têm fome e em que os velhos morrem sozinhos, para não aborrecer os filhos com a maçada de terem que aguentar o fardo da sua partida.
A verdade é que somos governados por garotos, custa-me assistir nos debates, à postura pueril e cândida, que os nossos eleitos nos presenteiam, qualquer hagiógrafo extraia um prazer imenso a compilar biografias de tão doces criaturas, não fosse a real percepção de serem eles em si mesmos, a raiz do problema.
O que quero dizer neste texto, é no entanto, outra coisa porventura mais grave, quero sublinhar a candura e condescendência com que admitimos todos nós que esta encenação continue, estamos de tal maneira familiarizados com ela, que já nos é indiferente.
Esta patranha, quase que sincera, transformou-se com a colaboração das circunstâncias, numa verdade mentirosa com a qual comungamos com excesso de humanidade, tornou-se de tal maneira passiva a forma como encaramos a nossa vivência colectiva, que a dissimulação erigida em método organizado, já conduz as nossas vidas de uma forma natural, já não distinguimos o progresso, de um simples juízo de gosto.
É um exercício de masoquismo intelectual comentar seja o que for que venha da partidarite instalada, sinceramente, já nem quero enumerar as infinitas razões que nos levaram à mentira, o embuste sobre o conteúdo é tal, que a fraude é já a natureza da coisa pública, podem-me dar uma arma, e retirar-me a ilusão de que com esforço podemos inventar, um mundo menos cómodo, mas mais justo.

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