sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Cavalos de corrida e cavalinhos de carrossel



Somos todos cavalos de corrida, corremos deslumbrados num circuito fechado, em círculos, somos máquinas infernais num carrossel de algibeira, somos Cavaleiros destemidos e conquistamos silêncios, porque a diplomacia já venceu a nossa revolta interior, que depois acarinhámos sem balbuciar qualquer som. Calámos o nosso demónio interior, não fosse ele acordar a vizinha de cima e criar mau ambiente no condomínio.
Pegámos nos valores dos nossos pais e empacotamo-los, de maneira a não perderem a frescura mas a ficarem escondidos, não queremos que desviem a nossa atenção, focalizada neste novo mundo, limpo e organizado, civilizado pela limitação do livre pensamento. Fazemos parte de alguma coisa que não conseguimos definir, mas estamos integrados, somos parte do grupelho, criaram-se calibrações absolutas dos níveis de personalidade admitidas, para uma salutar convivência com a hipocrisia. As bocas calam-se entorpecidas e enternecidas na doçura de fazer parte de alguma coisa, que não entendemos, mas que nos orienta ordeiramente.
Perdemos a ousadia de pensar, a vida é organizada dentro dos “gangs” forjados nas castas puras tradicionais, príncipes paridos pela estrutura negoceiam o lugar de cada um na escada social e a sua respectiva remuneração mensal, escolhem os mais fieis para promoverem e elegerem os mais concordantes. Aplicam a mesma fórmula a pretos e a brancos, a fiéis e a infiéis, as identidades colectivas desvaneceram-se, criaram uma nova ordem dominada pelo carneirismo, trocaram-se tesouros por cotações, e esta nova ordem mundial novinha em folha, assenta na confiança depositada na mentira. Os povos esqueceram a sua génese, as suas origens, desistiu-se de se tentar perceber o encadeamento de acontecimentos que nos fez chegar até aqui.

Chegados aqui, isto vai nos levar inevitavelmente por um de dois caminhos, o da aceitação de uma ordem global assente assumidamente na miséria da maioria, que mais cedo que tarde vai implodir, ou o caminho da aceleração dos nacionalismos exacerbados alicerçados na doutrina social da igreja católica, em permanentes contradições desde mesmo antes do Concílio de Niceia, ou na doutrina mais ortodoxa de um socialismo maquilhado de democrático, de que temos tido um ligeiro cheirinho nos recentes acontecimentos na Venezuela. Qualquer dos dois caminhos não levará a nada que possa travar a proliferação da fronteira da fome, que já se vai alastrando aos países do sul da Europa. A única voz que se tem levantado é a sabia e serena voz do professor Adriano Moreira, que isolado tem levantado o problema (pena não termos mais meia dúzia assim).
O estado social europeu emergido do pós guerra e o edifício dos seus princípios norteadores, foi provavelmente o maior feito da humanidade, com um longo período de paz, de prosperidade e cooperação entre povos, respeitando a identidade de cada um. Mas o sonho do projecto europeu deitou-se a perder, os ricos não querem pagar os vícios dos pobres, esqueceram a história, a falta de memória é confrangedora. Os líderes são transversalmente medíocres e colocam cada vez mais em causa a igualdade e a convergência entre povos, questionam cada vez mais a identidade de cada um num falhado, e em bom rigor, nunca desejado federalismo. Uma união monetária sem um real federalismo foi o fim do projecto europeu, neste momento paralisado e sem caminho de retorno, na eminência do perigo da fragmentação, onde isso nos vai conduzir, não sei, mas não vaticino a Canaã prometida de leite e mel.
Em relação a nós, pessoalmente acho que na falta de um D. Sebastião, devíamos pelo menos arranjar um Fontes Pereira de Melo (sim eu sei que é utópico atendendo ao lamaçal fedorento que são as estruturas dos nossos “gangs”), depois podem levar os BMW, os LCD, os “Tablets”, e os telemóveis, desde que deixem ficar a Biblioteca Joanina e a Torre do Tombo.
O que faz falta aos jovens é ler, não se entende a profundidade de Kant pela wikipédia (é engraçado que temos um ex-primeiro-ministro que fez um exercício semelhante), não se absorve a magnitude de pensamento de um Milton Friedman por se frequentar uma Universidade de verão do “gang”, não se entende a essência e a conjuntura da filosofia de Karl Marx apenas por se ter um cartão de militante de um “gang” de esquerda, ou por se beber uns copos na festa do Avante.
É dramático e intelectualmente castrador conceber que um jovem termina uma licenciatura numa Universidade portuguesa, sem nunca ter lido o Eça, o Pessoa ou o Camilo, sem ter lido a Bíblia uma vez que fosse na vida, de que serve à sociedade, por exemplo, um tecnocrata que nunca ouviu falar de Heródoto, ou que nunca se emocionou com o Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach?
A história demonstra que os regimes que sucedem tendem a tentar fazer esquecer os valores do regime que os antecede, por isso hoje apenas se fala à boca pequena dos valores do respeito, da humildade perante o trabalho e essencialmente do valor que muito nos caracteriza enquanto povo, que é a família, não fosse o conforto da rede da família, já teria colapsado há muito este arranjinho na corda bamba que se tornou este nosso país moderno. Não podemos deitar pela janela 50 anos da nossa história, não tem mal nenhum acreditar em Fátima, se isso nos torna melhores cidadãos ou nos fortalece espiritualmente, não tem mal nenhum esperar por D. Sebastião, não tem mal nenhum nos indignarmos quando hoje se confunde liberdade com libertinagem…
O que está profundamente errado é nos conformarmos com a mediocridade, reduzirmos a educação à profissionalização de incompetentes (dentro e fora dos “gangs”). O que está profundamente errado é a institucionalização da pobreza, quando uma maioria resignada que ganha menos de 650 euros aplaude o corte no rendimento dos que ganham 675, por uma questão de reposição de equidade social.
É esta a pobreza em que se transformou o Portugal moderno, o Portugal dos “gangs”, tudo o resto como escreveu Álvaro de Campos será “…o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, com o destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.”


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