sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A escrita, a Margarida e a Inês


Apetece-me escrever ao correr da pena, não no sentido atribuído pelos eruditos a uma escrita clara e objectiva, fluida e agradável, desprendida de profundas fundamentações ortodoxas de antigos mestres, velhos compêndios e tratados bolorentos que marcam o rigor de doutrinas e ciências empíricas sistematizadas.

Quero escrever ao correr da pena, no sentido de escrever por escrever, sem tema, sem objectivos, sem pensamentos… Escrever por escrever, num exercício umbilical da tinta negra sobre o papel branco, como sangue velho e intoxicado espalhado pela neve. Quero-me despir de emoções, abstrair-me de pensamentos e raciocínios, só a folha em branco e a tinta que lhe atiro de forma escorreita mas desprovida de nexo, tento esvaziar o cérebro e a alma numa metamorfose do individuo em folha em branco.

O homem devia ser uma folha em branco cada vez que acorda para um novo dia, sempre que abraça um recomeço. Mas quando acordamos o caderno já vai a meio e cedo chegará o dia onde não caberá nem mais uma frase.

Ai perdigão que perdeste a pena… ensina-me a livrar-me da minha!...

Vivo num mundo num plano distanciado da realidade, ganhei uma habituação tal à solidão que já não me sinto bem entre gente. Invento necessidades prementes, mas fúteis, obliteradas de conteúdo e de propósito. No período de uma vida li três livros (uma vida pode ter o espaço temporal de um instante ou do infinito), a Bíblia, a Ilíada e o Perfume, mas este último de Patrick Süskind foi o que absorvi com todos os sentidos, fará de mim um assassino em progresso certamente.

Três livros é o bastante para compreender a imensidão e o vazio do intelecto humano, o suficiente para clarificar a organização epistemológica da condição de servos dos sentidos. O que nos eleva mais enquanto homens? A pureza de uma equação doutrinal irrefutável, ou a pele rosada de uma adolescente despida? Que lembranças querem guardar na caixinha do infinito? A proeza inigualável da redenção do mundo, ou a tentação carnal do orgasmo de uma mulher doce?

Somos todos assassinos em progresso, nunca resistiremos aos sentidos animalescos que nos correm nas veias.

O Perfume conta-nos a história de um coleccionador, e é isso que somos todos. Coleccionadores de vidas, coleccionadores de emoções, de aromas, de ódios, de amores, de estados de alma sentidos ou vividos ou muitas vezes inventados. Magnifica esta cruzada de coleccionar o odor de mulheres especiais para no fim as compilar numa Inês perfeita, mas diferente de tudo que tinha almejado no início da empreitada.

Não me interpretem mal, nunca li a Margarida Rebelo Pinto, as capas, as cores, os títulos causam-me repulsa e uma certa agonia (A rapariga que perdeu o coração? A minha casa é o teu coração? O dia em que te esqueci?), fica-se aborrecido logo com o título, moro num apartamento pequeno mas não me estou a ver a conseguir arrumar a garrafeira e a biblioteca num coração. Confesso porém que um dos títulos das obras desta distinta e aristocrática senhora me é muito querido, é uma frase que tenho dificuldade em pronunciar: Minha querida Inês…

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