sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ignorante...



Tenho dado por mim a voltar a ler os clássicos da literatura portuguesa, dramaticamente actuais, dramaticamente quotidianos. É como se o Eça, o Ramalho, o Camilo e o Pessoa me visitassem num sono desperto mas pouco lucido, contando-me os devaneios das suas profecias embriagadas do amanhã, que tarda sempre em chegar. Vaticinam teorias e comentam cenários, numa narrativa inteligente e corrosiva, desmontam a sua sociedade que é a minha, alvitram conjecturas dúbias sobre certezas às que fecho os olhos com um sorriso lívido de dentes cerrados.
O Camilo há dias disse-me acerca de uma personagem, que era suficientemente ignorante para ter juízo, e não consigo esquecer esta frase…
Com a mesma tenho organizado quem me rodeia, e também a sociedade, em classificações entre o muito ajuizado e o caso perdido. Com a mesma tenho escrutinado todos os estágios temporais da minha existência, que tem oscilado entre a pureza cristalina da loucura e a letargia sossegada de breves momentos sisudos e ajuizados.
É um exercício de absolvição provar a nossa submissão à imperfeição, seres imperfeitos criados para o carrossel infinito da devoção, os desassossegados são os condenados, a punição é o poder de olhar para além da cerca, o poder de construir mundos e personagens que por serem inventadas são marionetas às quais é vedada a percepção sensorial.
Assim, fui militar e guerreiro sem ter travado qualquer guerra, sem ter ganho qualquer batalha. Fui poeta sem ter escrito qualquer verso, fui amante sem sentir qualquer afinidade ou respeito pelas sinergias das relações humanas, ou místicas ou outras quaisquer, sem sentir a volúpia carnal arrebatadora.
Fui bêbado quando era o próprio vinho que me mantinha agarrado à sobriedade e à cruel clarividência, fui um mar tenebroso que cabia numa malga de sopa, dada aos pobres por já estar azeda. Fui quase tudo, mas sem ter qualquer importância.
Importante é o que alavanca a partilha, a construção de momentos eternos, a alegria simples de não querer estar em mais lugar nenhum, de não pensar em nada, estar pura e simplesmente ali com um sorriso e uma caricia.
A mim já não me apetece construir nada, quero sempre estar noutro lugar, noutro espaço, noutro tempo. Não consigo parar de pensar, o meu cérebro é um turbilhão de ideias inócuas.
Eu também já construí a minha cidade, mas não a quis partilhar. Mantenho-a sempre alva e fria como o mármore, como uma sepultura que me engole.
 
Tenho que falar com o Camilo, acho que a felicidade advém da ignorância…