sábado, 6 de julho de 2013

De Visita a D. Carlos - Entrada 1

“Temos o mundo nas mãos, mas Deus não nos deixa brincar com ele, procuramos insistentemente o mecanismo que constrói os sonhos e a sua propriedade, mas não é possível materializar a propriedade dos sonhos, eles pertencem á humanidade, são apenas o simples e natural pulsar da vida, alheios a vontades e desejos.
Atravessa-me o flagelo intelectual do fracasso e a falta de propósito transformou-se num fatídico e voraz sentido magnético de alcançar incansavelmente o fim.
O pior de estar perto do fim é a sensação de lucidez, ser lúcido é mais doloroso do que estar sóbrio, quase que sentimos o divino, e o próprio Deus deve sentir esse vazio e essa solidão, essa necessidade de chorar sem o conseguir afasta-nos da condição humana.
É quase cruel constatarmos que aqueles que mais nos magoam são aqueles que mais queremos e nos são mais próximos, são esses que na sua infinita boa vontade, nos transformam nos monstros que somos. Ao primeiro afecto o monstro, animal na génese, começa por dominar o seu território, no inicio a alimentação, depois o primeiro brinquedo, o primeiro sorriso, o primeiro beijo, o primeiro drama, a seguir multiplicam-se as varias concepções de conjunturas instáveis de amor, domínio e necessidade, prazer, controlo e afirmação. O monstro é um animal insaciável e egoísta.
Estranho estes pensamentos que me assolam nesta primeira entrada, talvez o medo da novidade, talvez agonias do passado, certo porem que hoje é o dia de um novo começo. Farei diariamente entradas neste diário, cumpro assim o compromisso assumido, é engraçado escrever num simples caderno, confesso que tenho dificuldade em escrever á mão, há anos que não escrevia usando um simples lápis, as novas tecnologias formataram-nos de tal forma que parece arcaico o uso do caderno e do lápis á luz de um simples candeeiro a azeite, confesso porem que o aroma é agradável e a ténue luz chega a parecer romântica.
Hoje foi o dia da minha chegada, sinto dores musculares generalizadas mas de resto sinto-me bem, a travessia foi acompanhada de perda de consciência mas estou a seguir o protocolo e a calendarização estudadas.
Talvez este seja o meu tempo e esta vinda a outro tempo seja o recuperar do tempo que desperdicei.”
Coimbra, 6 De Julho de 1906
Fechou o caderno num gesto vagaroso com o olhar perdido nas sombras projectadas pelo candeeiro, instintivamente pegou no maço de tabaco e tirou um cigarro que acendeu num gesto habituado, o fumo complacente adensou o ambiente misturando-se com a luz criando uma aura intensa no minúsculo quarto. Pegou na garrafa e verteu no copo de vidro baço o suficiente para cobrir o fundo, pousou a garrafa, olhou o rótulo da garrafa sorrindo, por de cima da marca BUSHMILLS, irish whisky, tinha a data de 1608, achava curiosa esta sobreposição de datas e de caberem todas no mesmo tempo.
Encostou-se na cama arrumando o lápis e o caderno na mesa-de-cabeceira e continuou inerte saboreando o fumo e acompanhando a sua libertação com algum conforto. Bebeu de um trago o copo como que na procura vertical de um prazer e pouso-o com displicência maravilhado pela luz quase espessa do candeeiro, os olhos voltaram a prender-se no caderno preto, ia ser o seu legado, nada mais iria deixar de si, tudo o resto fazia parte do projecto, mas a sua alma iria ficar agarrada aquele simples caderno.
A sua vida tinha toda sido pautada por excessos, na procura do prazer e de algum significado existencial, a procura sempre lhe trouxe um sabor épico de uma cruzada, sempre quis definir um propósito onde não existe propósito algum para além da própria procura, e essa procura esgota-nos e afasta-nos da realidade.
Poucos homens em todo o mundo teriam aceitado fazer parte desta investigação, procuraram alguém sem metas, alguém perto do fim, alguém que pela sua vivência fosse capaz de ter a motivação suficiente de querer mudar o rumo da história ou pelo menos gastar os seus últimos dias a tentar.
É um homem diferente, chegou aqui porque acredita que a piedade dói mais que a solidão.
Nasceu em 19 de Março de 1974, deram lhe o nome de Armando José da Costa Cabral, Armando que era o nome do Pai, José porque nasceu no dia de S. José, da Costa Cabral era o apelido de família, peso que tinha de carregar.

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