domingo, 4 de maio de 2014

Dia da mãe


Haverá sempre os filhos da mãe e os filhos da puta !!

O Monstro





A versatilidade desconexa com que articulo raciocínios, infelizes e geometricamente indefiníveis, é directamente proporcional à emoção que me despertam aqueles arrepios desconfortáveis na espinha, que todos vós conheceis bem, sou por isso mais um elo sensível do universo, que responde a estímulos, muitas vezes superficiais e quase imperceptíveis.

O nosso mundo é aquilo que nos rodeia, e mais aquilo que inventamos dentro de nós, outras vezes, porém, também inventamos o que nos rodeia, numa moldura suficientemente opaca para que não possam espreitar a nossa alma despida.

Já alguém mostrou verdadeiramente e voluntariamente a sua alma despida, a natureza mais pura e cristalina do que sente? Ninguém nos conhece realmente, desde crianças que a vida nos ensina a maquilhar a nossa verdadeira índole, que seria da sociedade se um dia todos tivéssemos a honestidade intelectual de nos mostrarmos sem pudor, milhões de psicopatas a partilhar o mesmo planeta, a mesma cidade, a mesma rua. Tenho pensamentos que fariam corar a mais negra das almas, e carinhos aprisionados que libertariam o universo da solidão. Somos uma espécie notável, conseguimos partilhar uma vida de intimidade, sem mostrar uma ínfima parte sequer da nossa verdadeira natureza.

Só a loucura e a bebedeira nos aproximam ligeiramente da camada exterior do turbilhão incessante que temos dentro do peito, apertamos e moldamos a fúria de forma à mesma caber dentro da caixa torácica, e fique ainda espaço suficiente para respirar. É já uma condição genética, linhagens de psicopatas precedem-nos, sou tão vil e serviçal, como qualquer outro antepassado do início da nacionalidade, já fingi talvez mais que o Pessoa, já morri de amor como D. Pedro V. Morri de amor muitas vezes, e de cada vez, ressuscitou um monstro diferente.

terça-feira, 11 de março de 2014

O quilate das suas prosperidades



“As nações não vivem só de heroísmos, para cada povo existe, como para os indivíduos, uma conta de Deve e Haver, que nos dá o quilate das suas prosperidades, e por onde, cedo, até para os maiores impérios, os pródromos da decadência se denunciam.
Com respeito a Portugal, não será sem interesse indagar por que preço pagou as suas glórias, e quais os efeitos delas nas condições gerais do país.”
 A não ser pela evidência de uma escrita cuidada, poderíamos pensar que este excerto de texto poderia ter sido retirado de qualquer jornal ou comentário da actualidade, poderíamos pensar serem palavras de qualquer comentador de ocasião, dos muitos que invadem a opinião publicada, bombardeando-nos com doutrinas de propaganda, às vezes com prévia orientação, outras com um livre arbítrio, no mínimo questionável.
Nas últimas semanas fomos brindados com um discurso que o país está melhor, os sintomas da doença da pátria têm sido assertivamente combatidos, têm se purgado os males, mas o mesmo discurso alvitra que se trata exclusivamente dos males da nação, o mesmo não abrange os indivíduos, que vão continuar a padecer das maleitas. Trata-se de definir o estado como uma entidade exógena, alheia aos portugueses e à sua condição de vida. É curiosa esta forma de apresentar o todo, distanciado e desconexo das partes, como se as várias parcelas que compõem o todo fossem drasticamente menos importantes que o resultado final da soma das suas condições individuais. Dito de uma forma simples, é como se a globalidade da sociedade prospera-se, mantendo o empobrecimento das várias parcelas que a compõem, como se a miséria de um povo significa-se a riqueza de uma nação…
A particularidade do excerto de texto apresentado é ter sido escrito em 1928, maior excentricidade advém de o mesmo ser uma mensagem ao leitor de um livro que pretende ser um compêndio sobre os paradigmas da economia de um Portugal ao longo dos séculos. É a mensagem ao leitor de J. Lúcio de Azevedo na obra Épocas de Portugal Económico.
É deveras redutor para a actualidade ser notavelmente definida por um texto que visava ser crítico do passado, ser crítico da forma como erradamente construímos bases de sustentabilidade pouco consentâneas com a nossa condição, criando riqueza para nichos próximos do poder, e deixando de fora o grosso de uma população frágil, mas sempre, ou quase sempre dócil.
Os paralelismos de discurso não se ficam por aqui, pela Europa vão cada vez mais surgindo os nacionalismos, bom exemplo tivemos ultimamente na Suíça, vamos ver o que nos trazem as próximas eleições ao parlamento europeu, distanciado dos cidadãos mais que o paraíso. Com uma tendência de incorporação de pequenos partidos de extrema-direita, o que nos espera infelizmente será discursos deste género: “Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do século procurámos restituir o conforto das grandes certezas. Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever. Assim se assentaram os pilares do edifício, e se construiu a paz, a ordem, a união dos portugueses, o estado forte, a autoridade prestigiada, a administração honesta, o revigoramento da economia, o sentimento patriótico…”
Da Europa será isto que nos espera, não mencionei a situação da Ucrânia pelo simples facto de a mesma nunca ter sido um estado independente até à queda do muro de Berlim, será sempre um estado acoplado a um império. O idealismo com o qual se assentou a construção de uma união europeia, provavelmente o maior feito humano com base nos seus direitos inalienáveis, está a chegar ao fim, por via da corrupção material e intelectual dos seus dirigentes, por via do enfraquecimento dos cidadãos e das suas instituições.
Mas para as dúvidas e para o negativismo, é fácil de encontrar conforto, estará Deus e a virtude, a moral, o trabalho e o dever, a autoridade e a ordem. Em relação à administração honesta e ao revigoramento da economia, deixem lá isso, já andamos cá há nove séculos, já ninguém nos comove…

segunda-feira, 3 de março de 2014

A menina faz quarenta anos




A menina faz quarenta anos.
Desta vez não é suficiente um “Porreiro pá!...”, nem sequer chegará um exercício sublime ao jeito do Livro do Desassossego, não chegará uma epopeia colorida de Tágides, tão pouco chegará uma Eneida, uma Odisseia ou uma Ilíada.
Porra pá!...A menina faz quarenta anos.
Quarenta anos de ilusões e sonhos, e também quarenta anos de enganos e esquemas, e tudo mais que queiramos meter num copo, sempre meio cheio ou meio vazio. Não chegará uma “Tabacaria” para descrever o PREC, não chegará a cáustica ironia do Camilo em “A Queda dum Anjo” para representar o quadro exacto de quatro décadas de deputados ingénuos, quatro décadas de manhosos de carácter inquestionavelmente competente.
Foram quarenta anos virtuosos, quarenta anos que fizeram florescer a mais viçosa das oligarquias, enquistada na liberdade de se poder ser um corrupto imaculado, à descarada. Quarenta anos de flores, de música e poesia, de fagulhas nos olhos de quem embalado na modernidade, nem repara que a coisa lhe vai saindo do bolso. É como um grande bordel onde as donzelas nos prometem o amor eterno.
Foi assim. Numa grande orgia construímos um futuro melhor para todos.
Esta menina de que falo é a nossa terceira república, entenda-se como se quiser as irmãs mais velhas, independentemente das particularidades e especificidades dos regimes políticos das mesmas, é factual e concreto, que esta menina sobre a qual escrevo umas coisas é a terceira.
Quarenta anos é especial, até o Paco Bandeira, que dizem as más-línguas que batia na mulher, escreveu uma música, património pseudocultural da nossa menina, sobre a ternura própria desta idade, transposta em espaço temporal humano como a definição de maturidade e da metade da esperança média de vida, que nos fará pensar como abusámos da primeira metade, metade essa que não sabíamos que era a mais viril e intensa, a melhor, e nos fará pensar na melhor forma de tornar a última metade menos penosa, atendendo que se caminha progressivamente para o grande final.
Posta esta grosseira comparação sobre o percurso da vida humana, incomparavelmente menos importante que a menina, vamos então ao que interessa. A menina abarca um todo mal definido, aconchegado num reportório ideológico que nos tem conduzido, umas vezes mais depressa, outras mais devagar, para o abismo, circunstância com a qual convivemos de maneira aprazível, como tem mostrado a história. A menina foi a modos que um D. Sebastião, o Sebastianismo é um elemento fundamental da nossa matriz genética, foi desejada, aclamada, cantada e efabulada. Assim a menina foi revolução, contida e de boleia dos oficiais milicianos, foi liberdade e uma percepção de igualdade e felicidade para todos por igual. Foi cravos e rosas, foi foguetes e festas do Avante, foi fados e baladas, poemas e prosas, e comícios, e assembleias e saneamentos.
Acabou-se com os fascistas, nacionalizou-se a propriedade, e criou-se a utopia que isto era de todos e que todos tinham direito ao seu quinhão, ao seu sonho, o colonialismo tinha acabado, liberdade e autodeterminação para todos. Os tugas das colónias eram senhores feudais, tugas desprezíveis e racistas, o Soares, desculpem mas não sou capaz de tratar a criatura de outra forma, que começa no PC, funda o PS e dura-se mais uns anos, ainda nos presenteava com uma outra qualquer organização (recuso-me a falar na fundação pois certamente iria ser mal-educado), foi uma peça chave.
O milagre das rosas da Rainha Santa foi um truque de quinta categoria, ao jeito do Luís de Matos, o verdadeiro milagre das rosas foi protagonizado pelo Soares e seus compinchas, juntou-se o PPD, provavelmente o único partido político do mundo sem uma ideologia subjacente e que só não fez parte da internacional socialista porque o Soares não deixou, não queria dividir a sua coutada, depois o partido do táxi, já estava o PC, e pronto, fez-se uma grande caldeirada. Forjaram uma grande irmandade e começaram a parir o monstro que comeu a menina, isto partindo de uma ideia romântica e ingénua que a menina era virgem, e que não foi ela que seduziu o monstro.
A grande valia que a menina conseguiu trazer foi a liberdade de expressão, aquela que me permite fazer este exercício desajeitado de escrita e empurrar-vos para que o leiam. Na Grécia Antiga, este direito a que chamavam de “Isegoria”, era de tal maneira importante que até era concedido aos escravos. Assim, tal como na antiguidade, aqui e agora, a maioria é escravo, ou seja tem a sua liberdade condicionada, amarrada ao instinto de sobrevivência, amarrada às bocas que no final do dia tem para alimentar. A escravidão nunca foi abolida, está enraizada mesmo nas sociedades ditas modernas, como gostamos de apregoar a nossa.
Não me quero alongar muito, nem fugir do tema central, ou seja, a melhor forma de comemorar os quarenta anos da nossa menina, e cheguei à conclusão que nada melhor que pedir intervenção divina, para abençoar a menina. Pensei um pouco, mas a escolha tornou-se demasiado evidente Mateus, 5, As Bem-aventuranças, O sermão da montanha: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem- aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos…”.
Assim alegremo-nos, rejubilemos estes últimos quarenta anos, eles foram decisivos para que a maioria dos portugueses tenha garantido o seu lugarzinho no paraíso. Quando pensarem no Soares, no Cavaco, no Sócrates e no Passos Coelho lembrem-se do quanto eles foram importantes para garantirmos o nosso bilhete para o reino dos céus.
 
P.s. Não consigo parar de rir quando penso na ironia da história, quando eloquentemente invocam os valores de Abril, não consigo deixar de pensar na Abrilada de 1824 e fico na dúvida que valores norteiam determinadas personalidades…


domingo, 26 de janeiro de 2014

In nomine soleníssima Praxis

Não poderia começar de outra forma este texto, in nomine soleníssima Praxis, parece-me abusivo e intrusivo a forma como os meios de comunicação social têm tratado a praxe académica, ou seja “o conjunto de usos e costumes tradicionalmente existentes entre os estudantes da cidade de Coimbra…”, sim sublinho a palavra Coimbra, e tenho por dever de consciência, obrigação imposta pela minha vivência, de erguer a voz perante um ataque vil destas dimensões a tradições seculares, misturando-as com práticas facilmente comparáveis com rituais obscuros de organizações secretas.
 
Choro com as famílias a perda dos filhos, nada se pode comparar à dor da perda de um filho, estou solidário com o seu desejo de esclarecimento neste macabro acontecimento, reprovo a totalidade dos rituais que foram descritos em tudo que li, ouvi e vi, sobre este caso.
 
Posto isto, temos de se separar o trigo do joio, temos de uma forma esclarecida de entender que estas formas derivadas da matriz original da Praxe, nada têm de proximidade, ao verdadeiro espirito da soleníssima Praxis, e do verdadeiro espirito académico que exalta a juventude, a alegria e a partilha solidária, numa experiência de comunidade dificilmente repetível ao longo da vida.
A primeira situação que me pareceu bizarra, tenho acompanhado este caso pela comunicação social, e estou há muitos anos desligado da academia, foi constatar que o Cueca ainda é o Dux-Veteranorum, poucos entenderão o que estou a escrever (os que entenderem frequentaram o edifício OAF e certamente os Fans), o meu Dux foi o Cabralis, no caso de quererem enquadrar temporalmente a minha vivência na academia (na altura deveria normalmente ter sido o Paulão o Dux, daqui o meu abraço se leres o que escrevo, espero que estejas mais magrinho). Intriga-me a motivação de alguém que é Dux há 15 anos, atendendo que não é pago ordenado, e não é suposto se fazer carreira, certamente sintoma de falta de vitalidade da academia, da juventude, crónico sintoma nos jovens Calimeros que produzimos nas nossas Universidades (esta do Calimero vem de um texto que li há dias).
Parece-me que não faz sentido alguém ser Dux todos estes anos (os pais devem ter dinheiro, e certamente não o devem querer por perto), mas é também grave, alguém que exerce essas funções, não ter uma voz activa na defesa da tradição, da academia, da praxe, do que efectivamente representa, alguém que tem a obrigação de defender o Concelho de Veteranos, a Universidade e Coimbra.
Avançando, a praxe académica deve ser tão antiga como a Universidade fundada em 1290 por D. Dinis, teve capítulos positivos ao longo da sua história, e acontecimentos menos positivos, D. João V proibiu na altura chamada “investida”, mas a praxe como hoje entendemos, terá tido inicio como o fim do foro académico, com o fim do policiamento dos archeiros, ter-se-á iniciado o começo das trupes. Não terei de lembrar o papel do luto académico na importância da democracia e liberdade que vivemos, nem a real intervenção das Repúblicas na consciencialização política de muitas gerações.
Longe de mim a ideia de tentar fazer uma resenha histórica do que é e foi a praxe, escrevo hoje apenas para a defender.
 
Ao quarto toque vespertino da “cabra” soam os primeiros acordes, os “caloiros” traçam a capa pela primeira vez, é a sua primeira imposição simbólica de insígnias, os “putos”, a quem é vedada a permanência na Alta após as 3 da manhã, começam a ter a lagrima no olho, de capa traçada abraçam aquele momento eterno que querem manter por propriedade, os veteranos, quartanistas e quintanistas choram a despedida, e a cidade enternecida, toma o seu património secular, onde cantou o Zeca tocou o Brojo, o Portugal, o Adriano, e tantos outros.
Estranho porém, que na missa encomendada (que passou nos meios de comunicação social), a música de fundo, como adeus ao trágico acidente, tenha sido a Balada do 5º Ano Jurídico de 1989, a balada da despedida que tem marcado gerações, e ainda me deixa arrepiado.
Vi inúmeras vezes os pais com os olhos mareados de lagrimas a ver os filhos a queimar o grelo, a desfolhar as fitas, a usarem cartola e bengala, isto é a praxe académica, aqui se ganham amigos para a vida, aqui se conquista uma interligação que mantemos para sempre, prova disso o que escrevo.
Não sei para onde estes jovens de hoje levarão a praxe académica, certo porém que quero acreditar numa juventude que terá o arrojo de levar a praxe e a motivação deste país, sim porque este país depende das gerações futuras, para patamares de dignidade que a mesma merece.
 
Quem viveu Coimbra sabe o que quero dizer, sabe e sente cada momento, cada memória, “…e quando olhares as águas do rio, lembra-te de mim. És a andorinha duma primavera que chegou ao fim…”.
 
Já agora ó Cueca… tem tomates, defende a Academia!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O sal da solidão...




A saudade é o sal que tempera a solidão, sem saudade a solidão seria um vazio insuportável, sem gosto, é o elo, muito embora às vezes frágil demais, que nos prende a esta forma de vida sonâmbula e insana. É na sua essência, uma mensagem do passado que nos lembra que já lambemos avidamente a vida, que nos sacode e deixa alerta, para a possibilidade de talvez um dia podermos vir a fazer as pazes com o destino.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Órfãos numa terra que nos envergonha




A aparência de modernidade tende em tornar as sociedades num pueril vazio de valores e de símbolos, quando não conseguimos projectar num ícone, a nossa consciência de identidade colectiva, quando os vectores que norteiam a nossa conduta enquanto cidadãos se dissolvem na esperança de qualquer aforro de mais-valias, (quantificáveis em várias perspectivas) quando as glórias do passado de uma nação se transformam em meras narrativas literárias, sem estabelecer qualquer relação de identidade, tenderemos a perder o elo umbilical com a nossa consciência histórica e com as memórias partilhadas entre gerações, passaremos a ser órfãos numa terra que nos é indiferente e nos envergonha.
A actualidade deixou certamente de ser aquilo que ocorre, passou a ser aquilo que se arquitecta, já não se encontram vincadas diferenças entre uma coisa e outra, importante é potenciar as consequências, preferencialmente a curto prazo, parte-se de uma atitude selectiva do que apresentar características de interesse imediato, com tentativas de interpretação encadeadas na vontade, ou aparente concordância, de uma especulada necessidade, desse cidadão que sem saber perdeu o vínculo, a um todo, que vai todos dias desprezando mais, na coloquial conversa do café da manhã.
É me difícil interpretar com rigor o substrato das emoções que emergem das várias portugalidades, e também a natureza dos métodos aplicados pela politiquice instalada, reflexo activo da conjuntura de influências, isenta de barreiras morais, numa desenfreada marcha gananciosa ávida de saciar uma fome, enraivecida por anos a fio a colar cartazes e a prestar vassalagem à mediocridade.
A fraude por natureza tende a engendrar a fraude, construímos uma juventude assente numa corrupção disseminada, não sei que outro resultado poderíamos esperar, levando em conta a miopia cultural generalizada.
Vivemos os dias da informação dos amiguinhos (nem todos ingénuos) das redes sociais, com narrativas sem finalidade, ou com narrativas previamente orientadas pelo grupinho correspondente, onde é notório o traço inevitavelmente prisioneiro dos interesses, e dos fantasmas que acentuam a efabulação, do que defendem e a sua concepção do mundo. Será porventura este desfasamento cultural, entre a educação que julgamos ter, e a que efectivamente temos, um dos problemas maiores, a dispersão e esquecimento dos valores fundamentais, sobre os quais são construídas as sociedades, tornou-se um emergente dilema nacional, a arquitectura da politiquice transformou-se numa banal representação mal encenada, urje saber que caminho queremos trilhar, seja ele a exaltação da governança medíocre, seja o mesmo o regresso à tríade Fé, Lei e Rei, ou noutra versão de Futebol Fátima e Família.
Por outro lado vivemos num país dividido, uma metade litoral que se quer assumir como cosmopolita e de vanguarda (a metade do facebook), e a metade do Portugal profundo em declínio e abandono, onde vamos rezar os mortos, onde saqueamos as garantias dos financiamentos bancários, constituindo fiadores os ascendentes, transformando-os em parceiros morais da nossa loucura colectiva.
É estranho um país tão estreito estar nestas condições, daqui a 20 anos não haverá interior para chorar, estará naturalmente extinto, estará abandonado, desertificado, comeremos a partir desse dia o que os nossos parceiros da Europa Moderna nos derem de ração (a existir ainda Europa, como entidade económica).
Daqui a 20 anos não teremos a metade interior do rectângulo, não porque os espanhóis a tenham conquistado (que de facto não a querem), apenas porque a geração mais qualificada de sempre não quer, porque não lhe apetece, voltar às suas origens, porque evoluíram culturalmente e se sentem marialvas demais para sujar as mãos de terra.
Corremos o risco de perder a consciência da identidade nacional, por isso até quando vamos deixar estes grupinhos de moçoilos organizados em “Gangs” continuarem a abocanhar vorazmente o sustento da larga maioria, que chora o Eusébio e Exalta o Ronaldo? Será que não há por ai um Sidónio, nem que seja de segunda?…